Brasileiros no Canadá

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Violência vai chegando ao cotidiano do Canadá

Posted by José Francisco V. Schuster em 09/02/2010

Para quem, principalmente estando no Brasil, tem uma idéia distorcida do chamado “Primeiro Mundo” recomendo este excelente post do blog Quebecoisa http://www.quebecoisa.com/

“Terça-feira, Fevereiro 9

Onde acho melissinha com pochete?

Quando era adolescente no Rio de Janeiro, a onda era roubar cabelo das meninas. Eu, linda, jovem, com os cabelos virgens e longos, era um atrativo. O que fazíamos, eu e as colegas, era enrolar as madeixas em coque pra nao facilitar. Uma outra vez, tambem no Rio, meu pai chegou em casa com a metade do salário. Teve sorte : os bandidos toparam dividir com ele a grana do assalto.

Depois de nos cansarmos dessa vida ridícula de nao poder andar de bolsa, de ter de carregar no bolso um dinheirinho pro ladrão, fomos para Campo Grande, MS. Lá era bem mais calmo, mas muito longe da paz e sossego desejados. Estouraram meu carro pra pegar o rádio. Depois, estouraram o do Zé, e lá se foi outro aparelho de som. Para o nosso terceiro, um Pioneer bonitão, a saída foi produzir um disfarce. O Zé pegou a carcaça de um toca-fitas velho, cortou a frente, pôs uns velcros e, num passe de mágica, o rádio bonzão virava uma coisinha digna de pena. E ficamos nos sentindo os espertos, enganadores de ladrão…

Na partida pro Canada, evitamos divulgar até os derradeiros dias que estávamos indo pro exterior. O receio maior era a informação chegar em ouvidos de malfeitores que calculassem que “esses manés” teriam dólares para serem roubados.

Aqui em Montreal, ontem, fui vítima de furto. Foi tudo muito rápido e ninguém viu nada, nem o segurança imbecil na minha frente. Numa loja pequena, deixei minha mochila pesada no meu pé. Dei uns três passos pra pegar uma outra coisa, fiz uma pergunta pro vendedor e, quando me virei, a mochila nao estava mais lá. O lado bom foi que, antes de sair, tirei o notebook da bolsa, alem de ter esquecido de pegar o ipod. O lado ruim/péssimo é que estava voltando do último dia da gravação de um filme, e o cartão de memória com todo o áudio tava lá.

Sim, chamei a policia e tudo mais. Meus documentos foram encontrados horas depois e, de importante, só se foi o cartão de memória mesmo. Preparei um cartaz e pus na redondeza: recompensa de 30 dólares pra quem encontrá-lo. Enquanto copiava meus panfletos, uma senhora comentou que o filho dela teve a janela do carro quebrada no centro de Montreal e levaram tudo de dentro: eletrônicos, cds, etc. Segundo ela, foi culpa do rapaz: isso era para aprender a não deixar coisas de valor no carro.

O pior de tudo é perceber que a cultura da violência esta em formação por aqui, ou seja, a cultura em que o primeiro suspeito e culpado por qualquer ato de violência é a vitima. Por exemplo: juro que vou mandar tomar no c*@#$ o próximo que me recomendar tomar mais cuidado com as minhas coisas. Pergunto: sera que tenho de fazer como no Rio, somente sair de pochete, com meus pertences literalmente amarrados a mim? Me recuso a tomar no ombro a culpa que pertence aos dois malditos e infelizes cretinos que me roubaram.

Outro exemplo: a ex-esposa de um grande amigo nosso foi assaltada (não roubada como eu; assaltada mesmo) em uma estação de metrô no centro da cidade, aqui mesmo, em Montreal. Nao suficiente, apanhou dos imbecis da gangue, que machucaram rosto, corpo e alma, tudo de uma vez só. Contando o caso pros conhecidos, nao consigo quantificar quantas pessoas me perguntaram: “mas era de noite?”, “mas ela reagiu?”, “mas ela tava vestida com coisas de luxo?”. Nisso tudo está implícito um perverso julgamento: o de ela somente poderia ter sido vítima do seu descuido, da sua desatenção; a idéia de que a violência existe porque nós, manés, permitimos que ela nos atinja.

É a cultura da esperteza que chega ao norte: se voce não for esperto, automaticamente passa a ser um manezão. E daqui a pouco, só um mané vai ter janelas sem grade; só um mané pra deixar os filhos irem pra escola sozinhos; só uma mané vai andar desacompanhada pelas ruas da cidade, “dando mole”, como diz o povo. É a mesma logica que põe a culpa do estupro na mini-saia da menina.

E a pergunta de uma milhão de dólares fica: e daqui eu vou pra onde?”

Uma resposta to “Violência vai chegando ao cotidiano do Canadá”

  1. Solival said

    Belo artigo. Muito bem escrito. Tomara que tenha versões em inglês e em francês para que, pelo menos alguns, saibam o que é a “cultura da violência” em que nós brasileiros estamos inseridos…e que explica (como diz a autora) o fato de muitos estarem aqui. Solival (SP-RJ-Toronto)

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