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Roberto Leal sintetiza a dura vida de imigrante

Posted by José Francisco V. Schuster em 27/10/2008

No Brasil, para onde emigrou com 11 anos de idade, é chamado de português. Em Portugal, para onde voltou várias vezes, é chamado de brasileiro. Este é Roberto Leal, que esteve em Toronto no último final de semana, 27 anos depois seu último show no Canadá (sua carreira chega aos 36 anos), para espetáculos no Centro Cultural Português de Mississauga, na sexta-feira, e no Queen Elizabeth Theatre, no Exhibition Place de Toronto, no sábado, em uma promoção da Hollywood Productions, de Eduardo Vieira.

O dilema de ter dois passaportes na mão mas se sentir-se de certa forma desconfortável em ambos os lugares, ao mesmo tempo em que os ama profundamente, foi exposto por Roberto Leal com uma clareza e uma maestria raramente vistas. Muito mais do que um espetáculo, foi quase uma sessão terapêutica de grupo. Não foi de surpreender, portanto, que as lágrimas tenham vindo ao rosto do artista por diversas vezes – e  também à platéia, tocada exatamente em muitos pontos  que se evita admitir no dia-a-dia.

Roberto Leal, porém, tinha o direito de mexer nas feridas porque tinha uma conexão a tal ponto com o público que o fazia arrancar os beijos do coração antes de jogá-los – e percebia-se sinceridade no gesto. E, afinal, poucos artistas aproximam-se da beira do palco para abraçar e beijar algumas fãs, como ele fez.

Roberto Leal teve a coragem de poucos para lançar duras farpas. “O emigrante só é lembrado quando manda dinheiro para a Caixa Geral de Depósitos ou outro banco”, disparou, para logo frisar que sua carreira artística é muito bem sucedida em Portugal, mas que ele se colocava na situação de regra, dos emigrantes em geral. Roberto também queixou-se por os vizinhos fazerem fuxicos quando o emigrante constrói sua casa em Portugal e coloca um carro à porta. “Não é para se mostrar para os vizinhos, é para para provar a si próprio que valeu a pena tanta dor, tanto sofrimento. Eles não sabem o que é acordar a 15 graus abaixo de zero e não saber a que horas irá dormir”, afirmou, para aplauso da platéia. Também disse que não conseguiu em Portugal tratamento para a inflamação que teve no pé, e que estava quase a perdê-lo. “No Brasil, um país chamado de Terceiro Mundo, em três dias resolvi o problema”, revelou, desculpando-se por não dançar muito no palco pois embarcou para o Canadá apenas dois dias depois do tratamento, contrariando as ordens médicas de repousar.

O espetáculo não foi porém, de forma alguma, o renegar da sua pátria por um emigrante. Pelo contrário, foi uma demonstração de amor por Portugal como poucas vezes vista. Inegavalmente, o ápice do espetáculo foi quando Roberto Leal cantou, com grande emoção, o hino de Portugal, junto a seu filho, Rodrigo Leal, que para este momento trocou sua actuação na bateria pela guitarra. Além disso, muitas das 23 canções do espetáculo “Canto da Terra”, onde o artista também mostra sua preocupação ecológica, falam da profunda saudade do emigrante. Entre elas, “Trás-os-Montes” (onde Roberto Leal nasceu), e “Minha Aldeia”. “Há 27 anos estive aqui e vocês falavam que em dois anos voltariam para Portugal. Hoje, estão aqui de novo e falam a mesma coisa”, mexeu ele em mais uma ferida.

O espetáculo-terapia também foi marcante ao Roberto Leal relembrar sua infância e o amor especialmente pelo seu pai, a quem dedicou a canção “A casa de um português”. O artista lembrou quando o pai, contrariando a ordem da mãe, permitiu-lhe tocar numa candeia – para nunca mais fazê-lo. Também se emocionou ao lembrar que certa vez o pai levantou-se ao ser servido o almoço. Só tempos depois revelou a Roberto que havia percebido que havia apenas dez sardinhas para 11 pessoas – a esposa e os nove filhos. Como maneira de enfrentar e superar os tantos desafios da vida, o artista demonstrou sua profunda fé em Deus, através de canções como “Jesus Cristo”.

Restou a impressão de que os emigrantes tornam-se terceiras pessoas, juntando elementos das duas culturas, como comprovam canções como “Carimbó”,  em uma versão portuguesa para o ritmo brasileiro, e “Casa Portuguesa”, no caso inverso, virando um samba. Esta última foi uma das canções em que Roberto esteve acompanhado por duas bailarinas – desta vez, uma com um biquíni nas cores do Brasil e a outra com as cores de Portugal. A banda de oito músicos também foi perfeita no acompanhamento de um espetáculo que, com certeza, não foi apenas “mais um”.  Roberto Leal, além de mostrar ser um artista de raro quilate, deixou claro que não faz espetáculos para o público, mas com o público, partilhando o mais profundo da alma emigrante.

2 Respostas to “Roberto Leal sintetiza a dura vida de imigrante”

  1. Neusa Reis said

    Nossa!… senti-me deveras emocionada ao ler este artigo. Não sou portuguesa e nem emigrante, mas conheço o Roberto Leal e acompanho sua carreira desde sempre e sei de sua capacidade de tocar o coração das pessoas. Isso é mais um dom que Deus o dotou. Senti-me como se estivesse assitindo ao show e sentindo a emoção de suas palavras. Belo texto! Parabéns ao Jósè Francisco.

  2. anabela alberto said

    Sim! Parabéns José Francisco,pelo relato!!! Eu sou sim portuguesa e emigrante na Alemanha já mais de trinta anos. Aos 6 anos conheci pela rádio a voz de Roberto Leal e bem mais tarde é que entendi o carinho e a amargura com que o artista canta.
    Aos 15 anos conheci-o pessoalmente e desde esse ponto sinto orgulho de me sentir mais que fa.Muitas das vezes precorri Portugal inteiro para estar com ele e sua gente que me aguarda um carinho inesplicável.Até mesmo fui de Alemanha à Franca para estár bem perto dele e perto da sua gente amorosa.
    Claro que também precorri alguns lugares na Alemanha e tentei ajudar a malta com a traducao e tudo o que foi preciso.
    O mesmo carinho que Roberto lanca a seu público; assim o mesmo quando ele estás com pessoas sentado numa mesa onde se sinta bem e tranquilo.Sinto muito orgulho de dizer que reparei isso um milhare de vezes.
    Agora, eu, após (feliz) Mae, já nao tenho tempo de me lancar a precorrer Terras para ir a seu encontro. Hoje, é o meu filho, que pouco entende o portugues, mas que me chama bruscamente mal ve Roberto na TV.
    Já lá vao quatro anos onde o vi a última vez quando estive de Férias em Portugal, mas sempre tenho guardado no peito o brando calor e os tantos abracos fortes que sua banda, seua familia e ele me ofreceram.
    Claro que faco colecao dos seus Discos mas, ainda muitos me faltam e em especial o ” canto da terra” que, sim: claro que já escutei toda a música do CD, mas, o próprio CD ainda me falta no armário.
    Ainda nao sei quando será possível voltar a ve-lo mas espero que seja o mais breve possível onde nesse dia finalmente levarei meu filho comigo.
    Mas, essa familia, é espectalular e todos eles, sejam filhos como pais, estao completos de tanta ternura amiga…( nao só para comigo)!!!
    As saudades sao imensas, nao últimamente do Roberto como também de Márcia(sua esposa) e Rodrigo.
    Ainda estou para saber qual da sua gente, me poz a alcunha: “A Alema baixinha”…mas, entre ele e sua gente sempre me senti gigante com todo aquele carinho durante todos estes anos. Um obragado a eles e ao Roberto.
    E mais um obrigado a este artigo do José Francisco
    E beijinhos à malta
    ANABELA

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